Na ponta de uma caneta, viro um poeta sendo escravo dela.
Estou rodeado pelo tempo e o momento enquanto escrevo, sou as emoções que relato, sou o dia e a noite que nascem mais um dia eu mato.
Vejo a eternidade em cada linha que escrevo adivinhando o incerto, quando cito consigo ver o mundo, aquele mundo que eu próprio descrevo e desperto.
Escrevo frases, mil versos sobre a vida destes pobres ditadores que cada um se queixa, tento não escrever isso, mas esta caneta não me deixa.
Também sei desenhar, esboço a esperança de uma criança que um dia ainda voa, sendo um esboço, é tão inocente sem mentiras, que nem me magoa.
Posso ter pouco, mas o que tenho é tudo e partilho com qualquer colega, mesmo assim a inocência carrega nas costas a justiça, que a ambição não tem força para dizer que a leva.
Escrevo e quando engano rabisco as palavras vendo imagens e idealizo o desejo, pois sei que ao tentar denovo farei o quadro perfeito com todas as imperfeições que vejo.
Em vez de sangue nas veias, sou a tinta que corre numa folha livremente, e nessa folha sou as palavras que ao dizer a verdade sobre a mentira, ela mesma se risca para se por à frente.
Sou como um mendigo, vagueio por estas vidas como mensageiro sem dono, relatando e citando o que vejo idealizando aquilo que sou e do que sonho.
As palavras que se repetem em cada estrofe fiel, dizem o que sinto e tudo o que vives, tudo aquilo que vivo descreve-se num papel.
Sou a vida que tu proprio descreves enquanto citas sem platinas, não me orgulho nem tiro proveito do talento que possuo nas nossa quinas.
Sou um legado da escrita que o nosso Portugal ignora, escrevo para invocar a lingua dos poetas vivos que o fado toca.
Posso estar no foço, no confim mais obscuro do mundo, mas garanto que pelo que digo e penso sou reconhecido no silêncio e aplaudido mesmo no fundo.
Cada palavra é escrita com uma causa que me causa indignação, cada letra traduz o quão sensato eu sou num verso, num discurso ou até mesmo numa canção.
A caneta mostra a sua força e o seu bom senso na minha mente sã, sendo eu a tinta conformada com as letras de hoje e amanhã.
Algumas frases lembra o 25 de Abril em mil pontos de vista, mostra a liberdade e a opressão que se eleva num som de justiça.
Cada palavra é a história e o agora, é o amanhã sem medo, deduz a memória que lhe adorna e não deixa sequer um só segredo.
Quando escrevo tento ser o mais transparente, recto, frio e agressivo de punho em riste, fechado, subjectivo e internamente triste.
Quando vejo as linhas no fim penso num amigo que não vejo, que vou desvalorizando no dia-a-dia, querendo um abraço que não recebo e que peço a quem não devia.
No meio de tantas frases e palavras sou o crescimento feito na perspicácia e na persistência, sou a aprendizagem boa de uma caneta com má influência.
Sou eu próprio com as coisas certas mas com consequências erradas, com opções mal tomadas que acabam recompensadas.
Sou uma palavra escrita tal e qual como um mundo que gira ao contrário.
Sou a caneta que respira palavras, eu sou tudo e não sou nada, sou simples e sómente, o papel e a tinta.